# Tupi: dossiê histórico para a cena da expedição tupinambá no canal de Bertioga (c. 1553–1555)

> Dossiê para quem vai fazer a arte e o código de um demo three.js. Cada elemento visual deve poder ser rastreado até uma fonte.
> Data da pesquisa: set/2026. Língua: português do Brasil.
> **Convenções de confiança:** ALTA (fonte primária direta, várias fontes concordam) · MÉDIA (uma fonte primária ou inferência sólida) · BAIXA (inferência, fonte tardia ou de outra região) · CONTESTADA (as fontes divergem).
> **Citações:** os trechos entre aspas foram conferidos no texto. Salvo indicação, Staden é citado na tradução de Alberto Löfgren com notas de Theodoro Sampaio (*Viagem ao Brasil*, 1930; reed. Biblioteca Básica Brasileira/Fundar), Léry no original francês (ed. Gaffarel 1880, via Wikisource) e Gabriel Soares de Sousa (GSS) no *Tratado descritivo do Brasil em 1587* (ed. BBB/Fundar). "L1" e "L2" indicam o Livro 1 e o Livro 2 de Staden. Paráfrases que não pude conferir estão marcadas **[não verificado]**.

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## 0. Resumo: o que mais muda o design

| Tema | Achado | Confiança |
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| Canoas | Em São Vicente/Rio nos anos 1550 as canoas de guerra eram **de casca** (uma peça inteira de casca, aquecida e dobrada nas pontas, com travessas). Não eram de tronco escavado. O dicionário de Navarro registra o termo *ypé-ygara*, "canoa de casca". A nota de T. Sampaio que diz "tronco inteiriço" contradiz o texto de Staden. | ALTA |
| Tamanho da frota | Expedição de agosto de 1554: **38 canoas, com cerca de 18 homens cada** (~680 homens). Ataque anterior a Bertioga: **70 canoas**. Léry: "às vezes mais de 60". Tupiniquim contra Ubatuba: 25 canoas. | ALTA |
| Horário | O costume era atacar **de madrugada** (Staden L1 cap. XV e L2 cap. XXVI; GSS cap. CLXVIII). O reconhecimento era feito à noite. GSS: a última jornada era feita **à noite, com lua cheia**. | ALTA |
| Época do ano | **Agosto** (subida da tainha, *parati*) e **novembro** (maturação do milho, *abati*, para o cauim). Staden partiu "cerca de 14 de agosto" de 1554. | ALTA |
| Remar | Léry e GSS: **em pé**. As xilogravuras de Staden parecem mostrar remadores sentados ou ajoelhados. | CONTESTADA |
| "Pindorama" | **Não aparece nas fontes do séc. XVI.** A primeira ocorrência conhecida é de Couto de Magalhães (1897). Navarro o classifica entre os nomes criados por escritores. | ALTA |
| Título "Tupi" | Em São Vicente e Piratininga no séc. XVI, **"Tupi" era o nome que os aliados dos portugueses (os "Tupiniquim") davam a si mesmos**, ou seja, os *alvos* da expedição. Os atacantes de Ubatuba eram os Tupinambá, também chamados Tamoio. | ALTA |
| Metal | Os franceses traziam todo ano "facas, machados, espelhos, pentes e tesouras". O chefe que capturou Staden tinha uma **espingarda**. Há algum ferro, mas pouco. | ALTA |
| Guará | **Presente** em Bertioga em 1554 (Staden cita uma ilhota com ninhais de guará). Foi extinto no SP nos anos 1950 e voltou nos anos 1980. | ALTA |
| Cães | Staden não os menciona nas aldeias. Em tupi, o cão ganhou o nome da onça (*îagûara*), o que indica um animal novo. **Não pôr cães.** | MÉDIA |

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## 1. "Pindorama" e o título "Tupi"

### 1.1 Pindorama
- **O que se sabe.** O termo não aparece em Staden, Léry, Thevet, Anchieta, Nóbrega, Cardim nem Gabriel Soares, até onde pude verificar nos textos consultados. O Wiktionary, citando o próprio texto, dá como **primeira atestação Couto de Magalhães, 1897** ("Pindorama, which means 'region of palmtrees'…"). Couto de Magalhães afirma que era o nome tupi do Brasil em 1500, mas não apresenta fonte de época. A forma correta em tupi antigo seria *pindobetama* ou *pindoba retama*. **Oswald de Andrade** popularizou o termo no *Manifesto Antropófago* (1928), com o "matriarcado de Pindorama".
- **Navarro (2013, p. XI)** põe o termo numa lista de nomes que vieram da literatura: "Moema, Iracema, Ubirajara, Peri, Moacir, Marabá, **Pindorama**, Urupês, todos esses são nomes que primeiro as penas dos escritores sacramentaram antes de passar a nomear pessoas e lugares no Brasil." No dicionário não há verbete *Pindorama*. Existe *pindoba*, nome de palmeiras do gênero *Attalea*.
- **Confiança:** ALTA quanto à falta de atestação quinhentista. MÉDIA quanto à data exata de 1897: não consultei o original de Couto de Magalhães.
- **Para o build:** não usar "Pindorama" como nome de época na tela. Se for usado, marcar como termo moderno: "nome romântico/modernista (1897/1928)". Para "terra" em tupi antigo, *yby* (terra, chão) é mais seguro. *Retama* quer dizer "terra natal, pátria".

### 1.2 Tupi, Tupinambá, Tupiniquim
- **Família e língua.** O tupi antigo pertence à família tupi-guarani, do tronco tupi (Navarro, p. XI). No séc. XVI os jesuítas o chamavam de "língua brasílica" ou "a língua mais usada na costa do Brasil" (título da gramática de Anchieta, 1595).
- **Etnônimos em 1554.** Staden chama seus captores (de Ubatuba, "Uwattibi") de *tuppin inbá* e os aliados dos portugueses de *tuppin ikin* (L1 cap. XIV). Diz que os dois lados chamavam o inimigo de *tawaijar*, "inimigo" (nota de Sampaio: *tobaîara*). Anchieta e os portugueses chamavam os Tupinambá do litoral norte de SP e do Rio de **Tamoio**.
- **Achado importante.** Prezia (*Os Tupi de Piratininga*, tese PUC-SP, 2008) mostra que os moradores de Piratininga e do litoral vicentino "**autodenominavam-se Tupi**", e que "Tupiniquim" era o nome usado pelos Tupinambá e por alguns documentos. Os jesuítas falavam dos "Tupis de São Vicente". Assim, **"Tupi" como título pode ser lido, historicamente, como o nome do povo atacado**, e não dos atacantes.
- **Confiança:** ALTA.
- **Para o build:** "Tupi" como título funciona se for entendido como a família linguística e cultural à qual pertencem os dois lados. Sugiro um subtítulo como "Tupinambá (Tamoio) contra Tupi/Tupiniquim, 1554". Em tupi antigo: *Tupinambá*, *tupinikĩ* (Navarro registra *tupiniki*, "o mesmo que *tupinakyîa*", citando Staden).

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## 2. Geografia e ecologia: Bertioga, Santo Amaro e São Vicente por volta de 1554

### 2.1 Topografia histórica
- Staden (L1 cap. XIV–XVI): São Vicente é "uma ilha muito próxima da terra firme" e tem dois povoados: São Vicente e *Ywawasupe* (Enguaguaçu, a futura Santos). Há engenhos de açúcar na ilha. **Brikioka** (Bertioga) fica "a cinco milhas de São Vicente". É ali que os Tupinambá chegam primeiro, "para daí seguirem por entre uma ilha chamada Santo Maro [Santo Amaro, a *Guaibê* ou Guarujá] e a terra firme". Em outras palavras, o **canal de Bertioga era a porta de entrada das incursões por água**.
- Etimologia de Bertioga: a nota de Sampaio propõe *piraty-oka*, "paradeiro das tainhas". A de Frei Gaspar propõe *buriki-oka*, "refúgio de macacos". **CONTESTADA**, mas as duas cabem na cena: tainhas e macacos.
- A nota 56 de Sampaio (L1 cap. XIX) diz que Staden foi preso num ponto da ilha de Santo Amaro, do lado de dentro dos canais e lagamares, e levado pela barra de Bertioga, passando a um tiro de falconete do forte.

### 2.2 Os fortes de Bertioga em 1554 (Staden era artilheiro)
Havia **dois pontos fortificados**, um de cada lado da barra:
1. **Lado continental, Brikioka, depois Forte de São Tiago e hoje Forte São João.** Uma caiçara (paliçada) do tempo de Martim Afonso (1532) foi reconstruída pelos **irmãos mamelucos Braga**. Staden: "uma casa-forte… de pau a pique", queimada num ataque tupinambá de **70 canoas** "de madrugada" (L1 cap. XV). Uma carta régia de 1551/52 mandou refazê-la em **alvenaria**. Segundo Tomé de Sousa, as obras começaram em **1553**, com pedra e argamassa de barro, cal de sambaqui e óleo de baleia (Castro, 2010, Prefeitura de Bertioga). A reconstrução de M. Mori, citada por Castro, descreve um "forte de transição": uma **torre ou cortina com canhoneiras voltada para o canal** e, **para o lado da terra, uma "estacada dobrada" (dupla paliçada)**. Confiança MÉDIA na forma, ALTA na cronologia geral.
2. **Lado da ilha de Santo Amaro, depois Forte de São Filipe (ou Felipe).** É a "casa… ao pé da água, e bem defronte de Brikioka" onde Staden servia "com mais três e… algumas peças" (L1 cap. XVI). No começo era de madeira e "não estava bem segura". Depois da visita de Tomé de Sousa, "fizeram a casa de pedras, puseram dentro alguns canhões". Fica na Ponta da Armação/Baleia, em Guarujá. No séc. XVIII deu lugar ao Forte de São Luís, hoje em ruínas (Wikipédia pt "Forte de São Filipe da Bertioga"). Castro (2010) o chama de "paliçada menor".
- **Na xilogravura de Staden** (1557, p. 49, 55 e 106), Brikioka aparece como **um recinto murado ou paliçado circular com casas dentro**, junto à água.
- **Para o build:** na margem continental, uma estrutura baixa de pedra clara (cal de conchas, `#cfc6b0`) com uma torre quadrada de 1 ou 2 pavimentos e seteiras e canhoneiras voltadas para o canal, rodeada em terra por uma paliçada dupla de toras (`#5a4a36`). Pode haver algumas casas de taipa com cobertura de palha. Na ilha em frente, uma casa-forte menor com 2 a 4 peças de artilharia. Talvez uma cruz ou uma capela pequena (a capela de São João é posterior, BAIXA). **Não fazer** um forte "clássico" estrelado com baluartes: isso é anacrônico. Se o forte aparecer na cena, a guarnição é de uns 4 a 8 europeus e mamelucos, e há aldeias tupiniquim aliadas por perto.

### 2.3 Mangue, restinga e mata
- **Mangue do canal de Bertioga.** Tem três espécies: ***Rhizophora mangle*** (mangue-vermelho, com raízes-escora arqueadas), ***Avicennia schaueriana*** (mangue-preto, com pneumatóforos em "lápis" no lodo; no SE do Brasil a espécie é *A. schaueriana*, e não *A. germinans*) e ***Laguncularia racemosa*** (mangue-branco). Estudos atuais medem altura média de **6,5 a 6,8 m** nos rios Iriri e Itapanhaú, em mangues com algum distúrbio (tese USP sobre serapilheira em Bertioga; APAM Litoral Centro). ALTA para as espécies. Para 1554, um bosque mais alto e fechado, de 8 a 12 m, é **inferência (BAIXA)**. O dicionário de Navarro registra *apeku*, "limite da terra firme com o mangue", e dois nomes tupis para "mangue".
- **Restinga** (cordões arenosos atrás das praias de Bertioga e Guarujá): vegetação arbustiva e arbórea baixa, com clúsias, aroeira (*Schinus terebinthifolia*), pitangueira, jerivá (*Syagrus romanzoffiana*) e bromélias terrestres. Nas partes alagadas, guanandi (*Calophyllum brasiliense*) e caxeta. Confiança MÉDIA: é conhecimento botânico geral, não fonte do séc. XVI.
- **Mata Atlântica na Serra do Mar**, que aparece ao fundo e fica a poucos km, até ~800 a 1000 m. Staden: "uma grande serra que se estende a 3 milhas do mar" (L2 cap. III). A floresta primária densa tinha:
  - **palmito-juçara** (*Euterpe edulis*), abundante no sub-bosque;
  - **samambaiaçus** (*Cyathea*/*Alsophila*) nas encostas úmidas;
  - bromélias e orquídeas epífitas, lianas e cipós;
  - árvores emergentes grandes, como jequitibás (*Cariniana*), figueiras (*Ficus*) e cedros;
  - **embaúbas** (*Cecropia*, com copa prateada), que são pioneiras. Numa mata primária de 1554 deviam ser **raras**, limitadas às clareiras e às roças de coivara. Hoje dominam a paisagem porque ela foi perturbada.
  - **Floração em agosto:** o **ipê-amarelo** (*Handroanthus* spp.) dá manchas amarelas na copa no fim do inverno. A **quaresmeira** (*Pleroma granulosum*) floresce sobretudo no fim do verão e no outono, e o manacá-da-serra (*P. mutabile*) no verão. Para uma cena em agosto: pouco roxo, algum amarelo. MÉDIA.
- **Roças indígenas de coivara** (Staden L2 cap. X): árvores derrubadas e queimadas, e mandioca plantada "entre os troncos". Perto de aldeias, mostrar clareiras com troncos carbonizados e mandioca com ~1 braça de altura.

### 2.4 Fauna visível ao amanhecer
- **Guará** (*Eudocimus ruber*, *gûará*). Staden, L1 cap. XIX: "ao pé da ilha, na qual fui aprisionado, há uma outra ilha pequena, onde se aninham uns pássaros marítimos de nome *uwara*, que têm penas vermelhas". Os Tupinambá foram até lá para ver "se os seus inimigos *tuppin ikins* tinham estado lá este ano, para apanhar os pássaros e os filhotes". No L2 cap. XXXV, Staden descreve as fases de plumagem: pardacenta, depois vermelha. **ALTA.** A espécie estava extinta como reprodutora no SE nos anos 1950 e **voltou ao mangue de Cubatão/Santos nos anos 1980**, com ~385 indivíduos estimados em 1998 (WikiAves; ((o))eco). Bandos em voo baixo sobre o mangue são **histórica e ecologicamente corretos**. Cor: adultos `#e03a2f` a `#f04e37`, pontas das asas pretas, jovens pardo-acinzentados.
- **Garças.** Sampaio traduz o nome do chefe da aldeia de Staden, *Uratinge Wasu*, como "garça grande". Ardeídeos brancos, como a garça-branca-grande (*Ardea alba*), são adequados. MÉDIA.
- **Papagaios e maritacas.** Caminha (1500) viu papagaios "verdes uns, e pardos, outros". Staden descreve bandos. ALTA para a região em geral.
- **Macacos.** Staden (L2 cap. XXIX) cita três tipos: *key* (macaco-prego?), *acka key*, que "anda em grandes bandos… fazendo grande gritaria", e *pricki*, "vermelhos, têm barbas como os bodes… do tamanho de um cão". Sampaio identifica o *pricki* com o buriki ou muriqui. A descrição (vermelho e barbudo) combina melhor com o **bugio-ruivo** (*Alouatta guariba*), cujo **ronco ao amanhecer** é um som clássico da Mata Atlântica. Identificação CONTESTADA; o som do bugio ao amanhecer tem ALTA plausibilidade ecológica.
- **Jacaré-de-papo-amarelo** (*Caiman latirostris*, *îakaré*). Staden (L2 cap. XXXI) cita "grandes lagartos na água… bons para se comer". GSS fala de índios que tomam "lagartos que andam na água, tamanhos como eles… vivos a braços". MÉDIA: ele ocorre em mangues e brejos, mais em água doce ou salobra.
- **Anatomia e cor para os modelos de perto (ecologia, não fonte de época).** Caranguejo-uçá (*Ucides cordatus*): carapaça ~8–10 cm, lisa, castanho-azulada escura, quelas fortes quase iguais, patas vermelho-arroxeadas com cerdas. Chama-maré (*Leptuca*/*Minuca*): carapaça 2–3 cm, 4 pares de patas locomotoras; o macho tem uma quela enorme (claro-amarelada a alaranjada nas espécies do SE) que agita no display, a fêmea tem as duas quelas pequenas. Aratu (*Aratus pisonii*): carapaça quase quadrada, ~2–3 cm, patas longas e listradas, sobe nas raízes de *Rhizophora* (Melo 1996, *Manual de identificação dos Brachyura do litoral brasileiro*; Crane 1975, *Fiddler Crabs of the World*). Savacu (*Nycticorax nycticorax*): atarracado, pescoço curto recolhido, boné e dorso pretos, asas cinzentas, ventre branco, olho vermelho, bico preto grosso, patas amareladas, 2–3 plumas brancas na nuca; fica parado de dia no mangue (WikiAves, "savacu"). Garça-moura (*Ardea cocoi*): dorso cinza, pescoço branco com estrias pretas na frente, boné e manchas laterais pretas, bico amarelo (WikiAves). ALTA.
- Outros: capivara (Staden L2 cap. XXXI), onça e suçuarana (fora de cena), caranguejos no lodo do mangue, tainhas saltando (ver §3), botos (BAIXA, não verificado para o canal).
- **Paisagem sonora sugerida:** ondas na barra, água no mangue, ronco de bugios, maritacas e papagaios, gritos de garça, remos batendo na água. Nada de cantos de guerra durante a aproximação silenciosa (ver §8). Na hora do ataque: urros, trombetas de cabaça e o *inubia*, e bater de pés.

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## 3. Temporada e horário da guerra

- **Staden L1 cap. XVII** ("Como e por que motivo tínhamos de observar os inimigos mais numa época do ano do que na outra"):
  - "primeiro, no mês de **novembro**, quando umas frutas de nome *abbati* [milho] amadureciam, e das quais preparavam uma bebida chamada de *kaa wy* [cauim]… Quando voltam de uma guerra, querem ter os *abbatis* para fabricar essa bebida, que é para quando comem os inimigos."
  - "Também em **agosto** devíamos esperá-los, porque nesse tempo vão à caça de uma espécie de peixe, que então sai do mar para a água doce, onde desova. Estes peixes chamam eles… *brati* (parati)" (a tainha). Eles os pescavam "com pequenas redes ou matam-nos com flechas, e levam-nos fritos consigo" e faziam farinha de peixe, *pira-kui*.
- **Staden L1 cap. XLI:** "Ao partirmos para a guerra, era o ano de **1554, cerca de 14 de agosto**." No caminho, pescavam tainhas. "Na ida, vão muito devagar; mas na volta, com a maior pressa que podem."
- **Staden L2 cap. XXVI:** os chefes marcam a partida pelo amadurecimento de uma fruta ou pela desova do *prati* (tainha), chamada *pirakaen*.
- **Horário.** Staden L1 cap. XV: "vieram uma noite com 70 canoas, e, **como de seu costume, atacaram de madrugada**." L2 cap. XXVI: "Fazem o reconhecimento das aldeias dos seus inimigos **durante a noite e, ao raiar do dia, investem**." L1 cap. XXIX: os Tupiniquim "vieram **uma manhã** para atacar as cabanas". **GSS cap. CLXVIII:** "ordenam-se de maneira que possam dar nos contrários **de madrugada**, e em conjunção de **lua cheia** para andarem a derradeira jornada de noite pelo luar". Léry (cap. XIV) confirma ataques noturnos ("pensent entrer de nuict (comme c'est leur coustume)"). **ALTA.**
- **Rotina do dia na expedição de 1554 (L1 cap. XLI):** na véspera, arranchados na mata da ilha de São Sebastião (*Meyenbipe*), dançaram "até alta noite". "Ao raiar do dia reuniram-se os chefes ao redor de uma panela de peixe frito… contando os sonhos". Depois seguiram viagem de dia, junto à costa, com o plano de chegar a Boiçucanga "esperando aí até que anoitecesse". O combate com 5 canoas vindas de Brikioka aconteceu **de dia, no mar, "a duas boas léguas distantes de terra"**, depois de uma perseguição de ~4 horas.
- **Tempo.** Staden L1 cap. XLI: "ventava muito de noite". L1 cap. XX: uma "grande nuvem negra" com vento obrigou a remar com pressa até a terra. Léry: as canoas "ne sçauroyent endurer la mer un peu haute", e só se vai à guerra "en temps de calme". Staden L2 cap. XXIV: "Quando o mar está bravo, puxam as canoas para a terra".
- **Maré.** Nenhuma fonte primária fala da maré nos ataques (**lacuna**). O regime atual em Santos é **semidiurno, com micromaré de ~1 a 1,5 m** (DHN; estudos de Santos). No canal abrigado a maré dá corrente e mostra ou cobre as raízes do mangue. Na maré baixa aparecem as raízes de *Rhizophora* e o lodo com pneumatóforos, o que é visualmente rico.
- **Cálculos para a cena (meus, não de fonte primária):**
  - Nascer do sol em Bertioga (23,85°S, 46,14°O) por volta de 14 a 20 de agosto: **~06:30** (hora de Brasília moderna). O crepúsculo civil começa por volta de **06:05**. O sol nasce a **~75° de azimute (ENE)**, sobre o mar e a barra.
  - Em novembro o sol nasce por volta de 05:10.
  - **Lua:** pelo ciclo lunar médio (margem de ±1 dia), 14 de agosto de 1554 (calendário juliano) caiu **perto da lua cheia** (idade ~15–16 dias), o que combina com a regra de GSS. Uns 4 a 6 dias depois, a lua estaria **minguante gibosa e alta no céu oeste ao amanhecer**. Confiança MÉDIA.
- **Para o build:** fim do inverno austral. Amanhecer frio (~15–18 °C), névoa baixa sobre o mangue e o canal, céu que vai de `#1b2438` (azul da hora azul) a `#e9a36b`/`#f3c98b` no horizonte ENE. Lua gibosa a oeste. Mar calmo, porque não se saía com mar bravo. Tainhas saltando no canal.

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## 4. Canoas (*ygara*)

- **Construção: casca.**
  - **Staden L2 cap. XXIV ("Como navegam nas águas"):** "No país há uma espécie de árvores a que chamam *yga ywera*, cuja casca os selvagens destacam de cima a baixo, fazendo uma armação especial ao redor da árvore para tirá-la inteira. Depois, tomam a casca e a transportam da serra até o mar; aquecem-na ao fogo, dobram-na por diante e por detrás e lhe amarram dois paus atravessados no centro para que não se achate, e fazem assim uma canoa, na qual cabem 30 pessoas, para irem à guerra. A casca tem a grossura de um dedo polegar, mais ou menos 4 pés de largura e 40 de comprimento; algumas mais compridas e outras mais curtas. Nelas remam apressados… Não vão mais de duas milhas mar afora".
  - **Léry cap. XIV:** "leurs barques qu'ils appellent *Ygat*, lesquelles faites chascune d'une seule escorce d'arbre, qu'ils pellent expressément du haut en bas pour cest effect, sont neantmoins si grandes, que quarante ou cinquante personnes peuvent tenir dans une d'icelles." "Ces barques (plates qu'elles sont) n'enfonçans pas dans l'eau plus avant que feroit un ais".
  - **Navarro, *ygara*:** "canoa… embarcação (que pode conter trinta ou quarenta homens)". Registra também *ybyrá-ygara*, "canoa de madeira", e ***ypé-ygara*, "almadia de casca, canoa de casca"** (do *Vocabulário na Língua Brasílica*).
  - **Contraste com a Bahia em 1587.** GSS cap. CLX diz que as canoas "fazem de um só pau, que remam em pé vinte e trinta índios". No cap. LXXI (árvore *ubiragara*) descreve troncos de 60–70 palmos cujo **miolo mole é retirado**, ficando "a casca só, que lhe serve de canoas, tapadas as cabeças, em que se embarcam vinte e trinta pessoas". Há, então, variação regional e temporal.
  - **A nota de T. Sampaio** à edição de 1930 ("canoas dos tamoios, feitas de um tronco inteiriço") **contradiz o texto de Staden** e não deve ser seguida.
  - **Confiança:** ALTA para canoas de casca no contexto Staden/Léry.
- **Dimensões para o modelo:** 40 pés alemães dão ~**11,5–12,5 m** de comprimento; 4 pés dão ~**1,1–1,25 m** de boca. A casca tem ~2,5 cm de espessura, a borda é baixa (inferência: 35–50 cm) e o fundo é quase chato, com calado mínimo. As **pontas são dobradas para cima** (aquecidas e fechadas, "tapadas as cabeças") e **duas travessas de madeira no meio** mantêm a abertura. Nas xilogravuras de Staden (p. 60, 105, 111) as canoas na praia aparecem como **cascos alongados e rasos com nervuras ou travessas transversais**.
- **Cor e material:** casca interna marrom-avermelhada `#6b4a32` a `#7a5236`, face externa acinzentada e rugosa `#6e6a5e`, com amarrações de embira ou cipó. As fontes não descrevem **nenhuma decoração pintada** nas canoas; não inventar. MÉDIA.
- **Tripulação:** capacidade de 30 (Staden) ou 40–50 (Léry), mas **na expedição real havia ~18 por canoa** (L1 cap. XLI). A nota 89 de Sampaio calcula 684 homens.
- **Número de canoas:** **38** na expedição de agosto de 1554, **70** no ataque a Bertioga (c. 1550–52), **25** num ataque tupiniquim a Ubatuba e **5** numa patrulha de Bertioga. Léry: "vous en verrez quelquesfois plus de soixante toutes d'une flotte, lesquelles se suyvans pres à pres vont si viste qu'on les a incontinent perdues de veuë". Para a cena: **30 a 40 canoas em fila solta**.
- **Remos e postura: CONTESTADA.**
  - Léry: "vogans tout debout à leur mode, avec un aviron plat par les deux bouts, lequel ils tiennent par le milieu". A leitura literal é "remo chato nas duas pontas, segurado pelo meio"; parece uma pá dupla, mas a interpretação precisa ser checada com um especialista.
  - GSS: "remam em pé vinte e trinta índios, com o que as fazem voar".
  - A xilogravura de Staden (p. 106, combate naval) parece mostrar **remadores sentados ou de joelhos** com remos de uma pá, e arqueiros de pé.
  - Recomendo **mostrar a maioria remando em pé**, porque há duas fontes textuais concordantes, com pás estreitas de ~1,5–1,8 m. Deixar a postura como parâmetro para revisão.
- **Barulho.** Na aproximação vão "muito devagar" (Staden). No combate e na partida tocam trombetas (ver §6). Léry: em marcha, *inubia* e flautas de osso tocam "au milieu des troupes" ao partir de cada pouso. Na xilogravura p. 106 um homem **sopra uma trombeta** no meio da canoa.
- **Para o build:** mesh com ~12 m × 1,2 m, pontas levantadas ~30–40 cm, travessas no meio. Material com textura de casca fibrosa. Balanço lento, esteira pequena, porque o casco é raso. Na chegada, as canoas são **puxadas para a praia e escondidas** "por baixo de uma moita" (L1 cap. XVIII).

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## 5. Aparência dos guerreiros

### 5.1 Corpo, cabelo e pelos
- **Corpo:** "uma gente bonita de corpo e de feição… queimados do sol, pois andam todos nus" (Staden L2 cap. VIII). Léry cap. VIII: não maiores que os europeus, "plus forts, plus robustes et replets". A cor é "basanez, comme vous diriez les Espagnols ou Provençaux". Caminha: "pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes". GSS: "homens de meã estatura, de cor muito baça". **Pele:** `#8a5a3c` a `#a06b48`, com variação.
- **Nudez masculina completa.** Em Léry, só alguns velhos amarram folhas no pênis.
- **Depilação:** arrancam barba, sobrancelhas e cílios (Staden L2 cap. VIII; Léry: "voire jusques à la barbe et aux paupieres et sourcils"). Depois do contato usavam pinças dadas pelos europeus (Léry). **Rostos sem pelos, inclusive sem sobrancelhas.**
- **Cabelo masculino:** Staden: "Rapam uma parte da cabeça e deixam ao redor uma coroa de cabelos, como os frades". Léry: "depuis le sommet et tout le devant de la teste sont tondus fort pres… et sur le derriere… on leur rongne sur le col". Caminha: "tosquiados… rapados todavia por cima das orelhas". GSS: tosquiados "de muitas feições". Para o build: **frente e topo raspados, cabelo liso e preto (`#141414`) caindo atrás até a nuca, cortado reto**, com a "coroa" de frade. Variações individuais são permitidas. ALTA.
- **Cabelo feminino:** comprido (Staden L2 cap. XVI; GSS).

### 5.2 Pintura corporal
- **Jenipapo, preto.** Staden L2 cap. XXXVI: o suco "fica… tão preto como tinta; isso dura até o nono dia". Léry: "ils se noircissent ordinairement si bien les cuisses et les jambes… qu'ils ont chaussez des chausses de prestre". Caminha: preto "um tanto azulado". GSS: "lavores pretos… de jenipapo", "se tingem todos de jenipapo". **Cor na pele:** `#1d2330` a `#262a3a` (preto-azulado).
- **Urucum, vermelho.** Staden L2 cap. XV: "Pintam também um braço de preto e outro de vermelho, e do mesmo modo as pernas e o corpo". GSS: "tingem os pés de uma tinta vermelha muito fina, e as faces". Caminha: um homem "tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo". Na guerra (Staden L2 cap. XXVI): "pintam-se e enfeitam-se com penas vermelhas, para não se confundirem com os outros". **Cor:** `#b8321e` a `#c9471f` (urucum fresco, vermelho-alaranjado).
- **Padrões atestados:**
  - metades ou quartos de cor diferente ("quartejados", "metade… de tintura preta", "d'escaques", ou seja, xadrez) (Caminha);
  - pernas e coxas pretas (Léry);
  - um braço preto e outro vermelho (Staden);
  - **uma faixa preta na testa, de fonte a fonte, "da largura de dois dedos"** (Caminha);
  - lavores finos, desenhos em linha (GSS).
  - **Escarificações** dos matadores: incisões no peito, braços e coxas esfregadas com pó preto (Léry, que as compara a "chausses et pourpoints decoupez à la Suisse"; Staden L2 cap. XXVIII). Aparecem só nos guerreiros veteranos.
- **Penas coladas na pele.** Staden L2 cap. XV: penas "vermelhas e brancas misturadas sem ordem… grudadas no corpo com substâncias que tiram das árvores". Léry: penugem picada e tingida de vermelho com pau-brasil, colada com goma. Léry diz que era feita de galinhas trazidas pelos portugueses, o que é pós-contato. Caminha: "cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião". GSS: almécega (resina) no cabelo com penas amarelas.

### 5.3 Plumária
- ***Akangatara*** (Staden: *kanittare*): "ornato de penas vermelhas… que amarram em roda da cabeça" (L2 cap. XV). É uma coroa ou diadema de penas vermelhas. Navarro: *akangatara*, "cocar indígena". GSS: "diadema… de penas amarelas". Léry: frontais de penas vermelhas e encarnadas, chamados *yempenambi*. Caminha: "carapuças de penas amarelas… vermelhas… verdes". **Forma:** faixa na testa com penas curtas e eretas (8–15 cm), ou carapuça que cobre "até as orelhas" (GSS).
- ***Enduape*** (Staden: *enduap*): "enfeite de penas de avestruz [ema], enfeite grande e redondo, que amarram na parte de trás, quando vão à guerra contra os seus inimigos, ou fazem alguma festa" (L2 cap. XV). Há uma xilogravura dedicada ("Die Figur Enduap", p. 150). Léry: o *araroye* de plumas cinza de avestruz, "l'estroit devers la chair, et le large en dehors", preso nos rins com corda de algodão. GSS: "uma roda de penas de ema, que atam sobre as ancas, que lhes faz tamanho vulto que lhes cobre as costas todas de alto a baixo". **Forma:** roseta ou leque circular de ~50–70 cm de diâmetro, cinza (`#8e8a82` a `#a39e94`), presa na região lombar com a parte larga para fora. É o elemento de silhueta mais característico. ALTA.
- **Braceletes e jarreteiras de penas** (Staden: "feixes de penas nos braços"; GSS: "manilhas de penas amarelas"). Cores: vermelho de guará ou arara, amarelo de papagaio ou japu (`#f0c030`), verde de papagaio (`#3f8f3a`), azul de arara (`#1f5fae`, Léry). Léry diz que eles recebiam penas de avestruz (ema) dos vizinhos.
- **Placas de peito de tucano** coladas com cera acima das orelhas (Léry cap. VIII): amarelas com borda vermelha.
- **Mantos de penas de guará.** Léry cita "robes… de plumes" usados na guerra e nas execuções. Os **11 mantos que sobreviveram** (séc. XVI–XVII) são de penas vermelhas de guará sobre uma rede de fibra vegetal ou algodão. O de Copenhague mede **~120 × 80 cm e tem ~4.000 penas**. Ele foi levado de Pernambuco ou da Bahia pelos holandeses por volta de 1644, está no Museu Nacional da Dinamarca desde 1689 e **voltou ao Museu Nacional (RJ) em julho de 2024**, com cerimônia em setembro (The Art Newspaper, 17/9/2024). Os outros estão na Bélgica, Dinamarca, França, Itália e Suíça. **Atenção:** esses mantos são do **séc. XVII e do Nordeste**, e a literatura associa seu uso a pajés e lideranças em rituais. **Para 1554 em SP, usar no máximo 1 ou 2 peças, em anciãos ou líderes, e nunca em todos os remadores.** MÉDIA.
- **Mitos a evitar:** cocares longos de penas de águia caindo pelas costas, no estilo das Planícies norte-americanas; cocares enormes "de carnaval"; saias de palha.

### 5.4 Adornos labiais, faciais e colares
- ***Tembetá*** (Navarro: *tembetá*, "pedra do beiço"; nota de Sampaio: "ornato de nefrita"):
  - Staden L2 cap. XV: o lábio inferior é furado na infância "com um pedaço de osso de veado aguçado" e recebe "uma pedrinha ou pedacinho de pau". Quando o menino chega à idade das armas, o furo é alargado para "uma **pedra verde**… a ponta superior e mais fina fica para dentro dos lábios e a grossa para fora, deixando o lábio sempre pendido pelo peso da pedra". Nas bochechas, "de cada lado da boca, uma pequena pedra. Alguns têm-nas de pedra de cristal, estreitas sim, mas compridas."
  - Léry: os jovens usam um osso branco em forma de pino; os adultos (*conomioüassou*), "une pierre verte (espece de fausse esmeraude)", às vezes "aussi longue et ronde que le doigt"; alguns têm pedras nas duas bochechas.
  - GSS cap. CLV: alguns usam 3 ou 4 furos no lábio, pedras "verdes e pardas" nas faces.
  - Caminha: ossos "de comprimento de uma mão travessa" no lábio; um velho com "uma pedra verde" do tamanho do polegar.
  - **Cor:** verde-jade `#4f7f5a` a `#6a9a6e`, polido. Há a xilogravura "p. 148" (cabeça com tembetás e três modelos).
  - **Riqueza:** "Quem traz pedras nos lábios… é um dos mais ricos" (Staden L2 cap. XX).
- **Brincos e pendentes:** ossos brancos nas orelhas (Léry, GSS).
- **Colares:**
  - crescente de concha branca, *matte pue* / *bogessy* (Staden: "de grandes búzios marinhos… da forma de uma meia-lua… branco, como a neve"); o *yaci* de Léry, "plus longs que demi pied", de osso;
  - colares de discos de concha, *boüre* (Léry), com várias voltas de 3 braças;
  - **colares de dentes dos inimigos mortos** (GSS: "dois, três mil dentes"; Léry: "les dents enfilées, dont aucuns avoyent plus de deux brasses pendues à leur col").
  - Cores: branco-concha `#efe9dc`, marfim `#e6dcc4`.
- **Chocalhos de perna:** de sementes secas (tipo *Thevetia*) com pedrinhas dentro (Léry; GSS: "cascavéis de certas ervas da feição da castanha, cujo tinido se ouve muito longe"). São de festa e dança; na aproximação silenciosa, provavelmente não se usam (inferência).

### 5.5 Idade, físico e mulheres
- **Idades:** os jovens eram "iniciados" matando um inimigo (Staden L2 cap. XV, sobre nomes). Os velhos e os que mais mataram lideram (Léry). Cena: majoritariamente homens de 18 a 40 anos, alguns veteranos com escarificações e tembetás maiores, e um ou dois chefes ou anciãos.
- **Mulheres:**
  - Léry: em grandes expedições, "beaucoup de femmes, non pas pour combatre, ains seulement pour porter les licts de cotton, farines et autres vivres".
  - GSS: os principais "levam consigo as mulheres carregadas de mantimentos".
  - Staden: na canoa de Brikioka capturada "havia uma mulher" entre os tupiniquim feridos. Mulheres também adivinhavam antes da guerra (L2 cap. XXIII).
  - **Para o build:** poucas mulheres, talvez 1 ou 2 canoas com mulheres e carga (redes, farinha), sem armas. Confiança MÉDIA.

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## 6. Armas e instrumentos

- **Arco** (*orapat* em Léry; em tupi antigo *ybyrapara*, ver §10):
  - Léry: feito "des susdits bois noir et rouge", bem mais longo e forte que os europeus; corda de *tocon* (tucum).
  - Staden L2 cap. IX: arcos e flechas raspados com dente de porco-do-mato "até que fiquem tão roliços como se foram torneados".
  - **Para o build:** arco de 1,7–2,0 m (inferência a partir de "plus longs"; as xilogravuras mostram arcos da altura de um homem), seção arredondada, madeira escura (`#2b1d16`, pau-ferro ou brejaúva, **BAIXA** na identificação da madeira) ou avermelhada (`#6e2b1c`).
- **Flechas:**
  - Léry: "environ une brasse de longueur", ou seja ~1,6–1,8 m. São feitas "de trois pieces": haste do meio de caniço e as duas pontas de madeira preta, amarradas com casca fina.
  - **Duas penas**, "chacun d'un pied de long", amarradas com fio de algodão, sem cola. As penas eram coloridas: "empennons de plumes rouges, bleuës, vertes, incarnates" (Léry).
  - Pontas: osso aguçado, ponta de taquara lanceolada de ~15 cm, ou ferrão de arraia (Léry). Osso ou dentes de tubarão (Staden L2 cap. XXVII; GSS: "flechas, com dentes de tubarão").
  - **Flechas de fogo:** "algodão, que misturam com cera, amarram nas flechas e acendem" (Staden L2 cap. XXVII; também L2 cap. XXVI: "Arremessam também flechas acesas sobre as cabanas").
  - **Pós-contato:** "depuis que les François et Portugais ont frequenté ce pays-là… un fer de flesches, pour le moins au defaut d'iceluy une pointe de clou" (Léry).
- **Tacape de combate:**
  - Léry: "*Tacapes*… faites les unes de bois rouge, et les autres de bois noir, ordinairement longues de cinq à six pieds". Têm "un rond, ou oval au bout d'environ deux palmes de main de largeur, lequel, espais qu'il est de plus d'un pouce par le milieu, est si bien menuisé par les bords" que corta quase como um machado.
  - GSS cap. CLXVIII, para o assalto: "paus à feição de arrochos, com uma quina por uma ponta".
  - **Para o build:** 1,5–1,8 m, cabo roliço, cabeça chata oval ou circular de ~20 cm de diâmetro, bordas afiadas. Madeira vermelha escura `#5a2418` ou preta `#1e1814`. Quase todos levavam o arco e alguns o tacape a tiracolo (GSS: "outros levam além disto uma espada de pau a tiracolo").
- ***Ybyrapema*, o tacape cerimonial:**
  - Staden (*iwera pemme*, L2 cap. XXVIII): "Tem este mais de uma braça de comprimento, e o untam com uma substância que gruda. Tomam então cascas pardas de ovos de um pássaro chamado *mackukawa* [macuco, *Tinamus*] e moem-nas até reduzi-las a pó, que esfregam no bastão. Uma mulher então risca figuras nesse pó". Tem "feixes de penas" amarrados. Há a xilogravura p. 163: bastão reto, cabeça em disco, grandes borlas e penachos pendentes.
  - GSS: "espada de pau de ambas as mãos muito pesada, marchetada com continhas brancas de búzios, e pintada com cascas de ovos de cores… no cabo desta espada têm grandes penachos… a que eles chamam *embagadura*".
  - **Atenção:** é um objeto **ritual**, usado no terreiro para matar o cativo. **Não o levam na canoa como arma comum.** Se aparecer, vai embrulhado ou num contexto de aldeia. O pó de casca de ovo de macuco dá um cinza-azulado ou esverdeado claro (`#9aa6a0`, **BAIXA**).
- **Escudos:** Staden: "escudo de casca de árvores e de couros de animais ferozes". Léry: rodelas "du dos et du plus espais cuir sec de… *Tapiroussou*" (anta), "larges, plates et rondes comme le fond d'un tabourin d'Alemand", usadas só contra flechas. GSS: "paveses, que fazem de um pau mole e muito leve". **Para o build:** poucos escudos redondos (~50–60 cm) de couro de anta cru (`#7b5b3e`) ou de madeira leve. ALTA.
- **Trombetas e flautas:**
  - Staden L2 cap. XXVI: "tocam trombetas feitas de cabaças". Também tocavam trombetas nas bebedeiras (L2 cap. XIV).
  - Léry: *inubia*, "de la grosseur et longueur d'une demie pique, mais par le bout d'embas large d'environ demi pied comme un haubois"; e "fifres et fleutes faites des os des bras et des cuisses" dos inimigos comidos.
  - GSS: "buzinas", "tamboril", "búzios, gaitas e tambores". Sampaio (nota a *matte pue*) cita a buzina de búzio *uatapu*.
  - **Para o build:** 2 ou 3 trombetas longas (~1–1,5 m, boca de ~15 cm) na frota, e buzina de concha.
- ***Maraká*:** "fruto que cresce como uma abóbora… atravessam-lhe um pau… lhe deitam umas pedrinhas" (Staden L2 cap. XXII). "Esse instrumento é só dos homens, e cada um tem o seu". Era enfeitado com penas e guardado em cabana própria. Os chefes consultavam os maracás e os sonhos antes da guerra (L1 cap. XLI). GSS: o guerreiro enfeitado leva "na direita um maracá". Cabaça de ~15–20 cm com cabo e penas no topo. Na canoa, talvez com os chefes.
- **Cordas de amarrar:** "levam todos cordas enleadas ao redor do corpo, para amarrar os inimigos" (Staden L2 cap. XXVI). **Detalhe visual: cordas de algodão cru (`#e8e0cc`) enroladas no tronco.**
- **Armas de fogo e ferro em 1554:**
  - O "rei" que capturou Staden "tinha uma **espingarda** e um pouco de pólvora, que um francês lhe dera em troca de pau-brasil" (L1 cap. XIX; a nota corrige a tradução "zarabatana" de Löfgren: a zarabatana **não** era arma dos tupis da costa).
  - No combate de 1554 alguns prisioneiros foram "mortos a tiro".
  - Os franceses "vinham todos os anos com embarcações e lhes traziam **facas, machados, espelhos, pentes e tesouras**" (L1 cap. XXIV). A barba de Staden foi cortada "com uma tesoura que os franceses lhes tinham dado" (L1 cap. XXII).
  - Staden (L2 cap. IX) diz que machados de pedra ainda eram usados "em muitos lugares do país, onde navio algum chegou".
  - **Contas de vidro:** não as encontrei mencionadas nos trechos de Staden lidos (**não verificado**; possível, mas não documentado aqui).
  - **Para o build:** **1 arcabuz na frota inteira** (MÉDIA). Algumas **facas de ferro** e 1 ou 2 **machados de ferro** entre os chefes. Nenhuma lâmina de metal visível na maioria. **Nada** de espadas europeias, capacetes, roupas ou panos coloridos, e nada de contas de vidro em massa.

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## 7. A aldeia inimiga (*taba*)

- **Casas, *oka*, no L2 cap. IV de Staden:** "mais ou menos 14 pés de largura e uns 150 pés de comprimento… duas braças de altura; o teto é redondo, como uma abóbada. Cobrem depois com uma grossa camada de ramas de palmeira". "Estas têm geralmente três portinhas… baixas de modo a ser necessário a gente curvar-se". "Cada casal tem o seu fogo", em compartimentos de 12 pés.
  - Léry: casas "longues… de quatre vingts à cent pas". Em vez de porta, põem ramos de palmeira ou de *pinda*.
  - GSS: casas "cobertas da palma, a que os índios chamam *pindoba*", "cobertas de palmas até o chão". Duram 3 ou 4 anos.
  - Largura: 14 pés (~4 m) parece pouco diante de 150 pés (~45 m). Outras fontes sugerem casas mais largas, então **CONTESTADA/MÉDIA**.
  - **Para o build:** malocas em forma de "pão" ou túnel, 30–50 m × 5–10 m × 4–5 m de altura. O palhiço de palmeira desce até o chão (`#8b7a52` seco, `#6d6040` envelhecido). Três portas baixas.
- **Número de casas:** "Poucas das suas aldeias têm mais de sete cabanas" (Staden). A aldeia de Staden, Ubatuba, tinha 7.
- **Terreiro:** praça central entre as casas, onde se executam os prisioneiros (Staden); é o "terreiro quadrado" de GSS. Aldeia em "sítio alto e desabafado dos ventos… água muito perto" (GSS). A de Staden ficava "num morro" junto à praia.
- **Paliçada (*caiçara*; Staden *ywara*, nota *ybyrá*):**
  - Staden L2 cap. IV: "uma cerca de troncos rachados de palmeiras. A cerca costuma ter **braça e meia de altura**, e fazem-na tão junta que nenhuma flecha possa atravessá-la. Deixam umas aberturas pelas quais atiram. Ao redor da cerca fazem **outra cerca de varas grossas e compridas**, porém não as colocam muito perto umas das outras, apenas tanto a não deixar passar um homem."
  - GSS: "cerca de pau a pique muito forte, com suas portas e seteiras, e afastado da cerca vinte e trinta palmos [~4,4–6,6 m] fazem de redor dela uma rede de madeira".
  - Léry: nas aldeias de fronteira, estacas de palmeira de 5 ou 6 pés e **estrepes pontiagudos enterrados à flor do chão** nos caminhos.
  - Staden: espinhos enterrados como armadilhas (L2 cap. XXVII).
  - Na xilogravura p. 77 (ataque tupiniquim a Ubatuba), a paliçada circular tem **cabeças espetadas em postes** sobre a entrada.
- **Cabeças em estacas:** "Alguns deles têm o costume de espetar em postes, em frente à entrada das palhoças, as cabeças dos que foram devorados" (Staden L2 cap. IV). ALTA, mas **tratar com sobriedade**: são poucas, estão longe e não recebem foco.
- **Fumaça:** cada casal tinha um fogo aceso a noite toda (Staden L2 cap. VI). Ao amanhecer sobe **fumaça de dentro das malocas**, pelo palhiço. Isso é plausível e atmosférico.
- **Redes, *ini*:** "feitas de fios de algodão. Amarram-nas em dois esteios, acima do chão, e ao lado conservam fogo aceso" (Staden L2 cap. VI). No mato são amarradas em duas árvores (L1 cap. XX). Cor de algodão cru.
- **Cães:** **não pôr.** Staden não os menciona nas aldeias. Navarro registra *îagûara* como 1) onça e 2) "nome dado pelos índios ao cão" (VLB), o que sugere um animal introduzido. MÉDIA.
- **Galinhas:** Léry (Rio, 1557) diz que os Tupinambá tinham "quantité de poules communes, dont les Portugais leur ont baillé l'engeance". Galinhas numa aldeia tupiniquim aliada dos portugueses são **plausíveis** (BAIXA–MÉDIA); servem de detalhe, não de protagonista.
- **Observação sobre alvos:** nesta cena o alvo é **tupiniquim**, aliado dos portugueses. Staden relata que no ataque de 70 canoas "os outros selvagens [tupiniquim] fugiram para suas casas" junto ao posto de Brikioka. Pode-se mostrar uma aldeia tupiniquim perto do forte, com arquitetura igual à tupinambá (mesma cultura).

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## 8. Táticas e comportamento na aproximação

- **Preparação** (Staden L2 cap. XXVI): os chefes se reúnem, marcam a partida, aprontam "as suas canoas, suas flechas e farinha dura de raízes, que chamam *vythan* (*uytã*)". Consultam os pajés e os **sonhos** (sonhar que se assa o inimigo é bom presságio), bebem e dançam com os maracás.
- **Provisões:**
  - **Farinha de guerra**: GSS cap. CLXVII diz que as mulheres fazem "a farinha que hão de levar, a que chamam **de guerra**; porque dura muito".
  - **Farinha de peixe, *pira-kui*** (Staden L1 cap. XVII; L2 cap. VII: peixe seco, pilado, "que se conserva por muito tempo").
  - Tainha frita ou moqueada pescada no caminho.
  - Cada homem leva "seu quinhão de farinha às costas, e a rede" (GSS).
  - **Para o build:** cestos ou fardos de folhas de palmeira com farinha e redes enroladas no fundo das canoas.
- **Aproximação:**
  - GSS cap. CLXVIII: a duas jornadas do inimigo "não fazem fogo de dia, por não serem sentidos deles pelos fumos". Os Guaianá, segundo Staden (L2 cap. III), apagavam o fogo ao raiar do dia pela mesma razão.
  - Espias: "mancebos muito ligeiros" vão na frente (GSS cap. CLXVII).
  - Emboscada: os mais hábeis se escondem no mato, às vezes mais de 24 h (Léry). O plano de 1554 era "escondendo-se nas matas dos arredores, aprisionar todos que lhes caíssem nas mãos" (Staden L1 cap. XLI).
  - Na véspera: arenga do chefe à noite pedindo bons sonhos, dança, e **ao raiar do dia** refeição dos chefes com relato dos sonhos (Staden L1 cap. XLI; L2 cap. XXVI).
  - Tentativa de se esconder atrás de um rochedo ao avistar canoas inimigas (L1 cap. XLI).
- **Ataque:** "Atacam com grande vozeria; pisam duro no chão; tocam trombetas feitas de cabaças… pintam-se e enfeitam-se com penas vermelhas… Arremessam também flechas acesas" (Staden L2 cap. XXVI). GSS: "dão todos juntos tamanho urro… com suas buzinas e tamboris". Na volta, incendeiam as casas.
- **Pousos:** GSS cap. CLXVII: acampam até as 9 h da manhã perto d'água, em choupanas (*tejupares*) arrumadas em ruas. Staden: "cabanas que antes tinham levantado" e redes presas em árvores (L1 cap. XX).
- **Combate:** Léry: gritos, arcos a 200–300 passos, flechas "aussi drues que mousches", depois luta corpo a corpo com tacape a duas mãos. GSS: "andam saltando de uma banda para outra, sem estar nunca quedos, assobiando, dando com a mão no peito".
- **Para o build (sequência sugerida):**
  1. Pré-amanhecer, lua a oeste, canoas em fila junto ao mangue, remadas lentas, **silêncio**, sem fogo.
  2. Primeira luz: batedores numa canoa pequena na frente, e as canoas grandes esperando, encostadas nas raízes do mangue.
  3. Opcional: sinal de trombeta de cabaça ou *inubia* e urro coletivo, que marcam o início do ataque (fora de cena ou no fim).

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## 9. Moldura ritual: texto sugerido para a tela (1 parágrafo)

> Para os Tupinambá e os Tupiniquim — povos da mesma língua e cultura — a guerra não visava conquistar terras nem riquezas: era vingança. Cada morto exigia outro morto, e capturar um inimigo era a maior honra de um homem, que assim ganhava um novo nome. O cativo era levado à aldeia, vivia ali às vezes por meses e, por fim, era morto num ritual público e comido pela comunidade. Esse ciclo ligava vivos e mortos, antepassados e descendentes, e fazia da memória da vingança o próprio tempo da sociedade (Florestan Fernandes, *A função social da guerra na sociedade Tupinambá*, 1952; M. Carneiro da Cunha e E. Viveiros de Castro, "Vingança e temporalidade: os Tupinambá", 1985). O que sabemos vem sobretudo de relatos europeus — como o do artilheiro Hans Staden, capturado perto daqui em 1554 — que devem ser lidos com cuidado. Os Tupinambá (Bahia) e os Tupiniquim (Espírito Santo) seguem existindo hoje.

Fontes que sustentam o texto:
- Léry cap. XIV: "n'estans poussez d'autre affection que de venger… ses parens et amis".
- Staden L2 cap. XXV: "Não o fazem por fome, mas por grande ódio e inveja".
- Staden L2 cap. XXI: "A sua maior honra é prender e matar muitos inimigos… quantos inimigos cada qual tiver morto, tantos nomes pode tomar".
- Carneiro da Cunha & Viveiros de Castro (1985, *JSA* 71:191–208): a vingança, mais fundamental que o canibalismo, organiza a temporalidade.
- Viveiros de Castro, "O mármore e a murta" (1992).
- Fausto (1992), "Fragmentos de história e cultura tupinambá".

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## 10. Língua: vocabulário de tupi antigo para rótulos e áudio

Grafia segundo o **Dicionário de Tupi Antigo** de Eduardo Navarro (2013), conferida na versão digitalizada (OCR). No OCR os diacríticos de semivogal (î, û) e as nasais (ĩ) às vezes se perdem. Onde marquei **(conferir)**, a forma segue a convenção de Navarro, mas o acento precisa ser checado no impresso.

| Tupi antigo (Navarro) | Sentido | Onde está atestado / nota | Confiança |
|---|---|---|---|
| **ygara** | canoa, embarcação ("que pode conter trinta ou quarenta homens") | verbete; VLB; Anchieta | ALTA |
| **ypé-ygara** | canoa de casca | verbete *ygara* (VLB) | ALTA |
| ygarapé | "caminho de canoas", igarapé | Navarro cita fonte de 1894; é termo **amazônico e tardio** — evitar para Bertioga | BAIXA para uso na cena |
| **'y** | água, rio | guia de pronúncia de Navarro | ALTA |
| **kûarasy** | sol | verbete (OCR "kôarasy"; Anchieta: "Kûarasy nipó oberá") (conferir) | ALTA |
| **ko'ema** (ou ko'ê) | manhã, amanhecer | verbete | ALTA |
| **ka'amutuma** | madrugada, manhãzinha | verbete (VLB); *ka'amutumo* = de madrugada | ALTA |
| **ka'a** | mata, mato; folha, erva | verbete | ALTA |
| **ybytu** | vento | verbete | ALTA |
| **ybytyra** | montanha, morro (a Serra) | verbete | ALTA |
| **pirá** | peixe | verbete | ALTA |
| parati / *paraty* | tainha | Staden *brati*/*prati*; nota de Sampaio (não conferi o verbete) | MÉDIA |
| **taba** | aldeia | verbete | ALTA |
| **oka** | casa | uso padrão (verbete não localizado no OCR) (conferir) | MÉDIA |
| **ini** | rede de dormir | verbete (cita Staden) | ALTA |
| **morubixaba** (mborubixaba) | chefe | verbete | ALTA |
| **pindoba** | palmeira (*Attalea* e outras); palha de cobrir casas | verbete; GSS | ALTA |
| **tenondé** | adiante, para a frente | verbete ("Akûabi tenondé" = segui adiante) | ALTA |
| **ybyrapema** | tacape cerimonial ("pau anguloso") | verbete (cita Staden); var. *ygapema* | ALTA |
| **akangatara** | cocar, diadema de penas | verbete (cita Staden) | ALTA |
| enduape | roseta de penas de ema | Staden *enduap*; Navarro só o cita em nota (Gonçalves Dias) | MÉDIA |
| **tembetá** | pedra do beiço | Navarro; nota de Sampaio | ALTA |
| **maraká** | chocalho ritual | verbete | ALTA |
| **musurana** | corda do cativo | verbete | ALTA |
| **gûará** | guará (ave) | verbete (OCR "gúará") (conferir) | ALTA |
| **îakaré** | jacaré | verbete (OCR "iakaré") (conferir) | ALTA |
| **îagûara** | onça; depois também "cão" | verbete (OCR "iagúara") (conferir) | ALTA |
| **uruku** | urucum | verbete | ALTA |
| **abati** | milho | verbete (cita Staden) | ALTA |
| **kaûĩ** | cauim | verbete (OCR "kaúi") (conferir) | ALTA |
| **tupinikĩ** | Tupiniquim | verbete *tupiniki* (conferir nasal) | ALTA |
| **Tupinambá** | Tupinambá | Anchieta, *Poemas* | ALTA |
| **abaeté** | homem valoroso; terror | verbete | ALTA |
| petyma | tabaco | verbete | ALTA |

**Frases registradas por Staden** (grafia dele, com a restituição de Sampaio; valem como áudio "de época"):
- "*A junesche been ermi vramme*", "Eu, vossa comida, cheguei" (L1 cap. XXI; Sampaio: *Ayú ichebe enê remiurama*). **Não recomendo usar**: é sensacionalista.
- "*O qua moa amanassu*", "A grande tempestade fica para trás" (L1 cap. XX; Sampaio: *Oquara mõ amanaçú*).
- "*Sche innam me pepicke keseagu*", "para vingar a morte de meus amigos, estou aqui" (L2 cap. XXV). É o motivo da vingança. **Confiança MÉDIA** na forma, porque as restituições de Sampaio (1930) são anteriores a Navarro. Para áudio, conferir com um especialista em tupi antigo (p. ex. a equipe de Navarro na USP).

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## 11. Xilogravuras de Staden (1557), referências visuais em domínio público

Todas estão em **Wikimedia Commons, categoria "Pages of Wahrhaftige Historia"** (digitalização completa da 1ª ed., Marburg 1557, com 184 páginas). URL padrão: `https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Warhaftige_Historia_NNN.jpg`. As descrições abaixo são **minhas**, feitas vendo as imagens.

| Pág. | Capítulo | O que mostra | Útil para |
|---|---|---|---|
| 049 | L1 XV | Ataque tupinambá a **Brikioka**. Mapa com Brikioka (recinto murado), S. Maro, engenho, e muitas canoas e combatentes | forte, canoas em massa |
| 055 | L1 XVIII | **Captura de Staden**: mapa com Brikioka, Vrbioneme (São Vicente), Ingenio, canoas no canal | geografia do canal |
| 060 | L1 XX | Pouso noturno numa ilha: Staden amarrado, rede entre árvores, **canoas na praia com travessas** | canoas de casca, acampamento |
| 061 | L1 XX | Tempestade na viagem, canoas, "Ocarasu" | tempo |
| 067 | L1 XXIII | Dança das mulheres em volta de Staden na aldeia | malocas |
| 077 | L1 XXIX | **Ataque tupiniquim (25 canoas) a Ubatuba**: paliçada circular, **cabeças em postes**, malocas, canoas | taba, paliçada, ataque |
| 091 | L1 XXXIX | Navio europeu com canoas ao redor | escala canoa × navio |
| 105 | L1 XLI | Acampamento na ilha de São Sebastião ("Ins S. Sebastian"): redes em esteios, cabanas, guerreiros com arcos, **canoas puxadas na areia** | pouso da expedição |
| 106 | L1 XLI | **Combate naval perto de Boiçucanga**: Brikioka e S. Maro ao fundo, canoas cheias, arqueiros, **tocador de trombeta**, canoa virada | a imagem mais próxima da cena |
| 111 | L1 XLIII | Dança com prisioneiros em Ubatuba, fila de canoas na praia | canoas, forma |
| 130 | L2 frontispício | Dois homens, um com **enduape** e maracá | figurino |
| 136 | L2 IV | "Figur der hütten vnd festen": **aldeia com paliçada dupla** e malocas | taba |
| 138 | L2 VI | Rede de dormir | *ini* |
| 148 | L2 XV | Cabeça com **tembetá** e pedras nas faces, e modelos de tembetá | rosto |
| 150 | L2 XV | "Die Figur Enduap" | roseta de penas |
| 163 | L2 XXVIII | **Ybyrapema** com borlas de penas (colorida à mão nesta cópia) | clava ritual |
| 182–183 | mapa | Mapa da costa (inclui o Brasil e o Rio de Janeiro) | contexto |

Nota: o capítulo das canoas (L2 cap. XXIV, p. 157) **não tem xilogravura**. A forma das canoas precisa ser inferida das cenas acima.

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## 12. Questões em aberto e revisão recomendada

1. **Postura e remo** (em pé ou sentado; o "aviron plat par les deux bouts" de Léry é remo de pá dupla?). Consultar arqueologia náutica ou etno-história. Como referência comparativa, olhar as canoas de casca ainda feitas por povos tupi-guarani ou jê (**não verificado**).
2. **Espécie da árvore da canoa** (*yga ywera*, "pau de canoa"). É provavelmente uma árvore de casca grossa, como jatobá (*Hymenaea*) ou similar, mas isso é **não verificado**. Perguntar a um etnobotânico.
3. **Largura das malocas** (14 pés em Staden parece estreito). Conferir no original alemão ("vierzehn Fuß"?) e em Métraux (1928, *La civilisation matérielle des tribus Tupi-Guarani*).
4. **Presença de mulheres na frota de 1554.** Staden não é explícito.
5. **Aldeias tupiniquim na área de Bertioga em 1554**: localização e tamanho. Consultar Prezia (2008) e Monteiro (1994).
6. **Forma do forte em 1554** (madeira ou pedra, fase de transição). Consultar o Museu do Forte São João e os estudos de M. Mori e do IPHAN.
7. **Pronúncia e gramática das falas**: revisar com especialista em tupi antigo.
8. **Consulta indígena (essencial).** Apresentar a cena, a pintura corporal, a plumária e o texto da §9 a:
   - **Tupinambá de Olivença** (Ilhéus, BA). Glicéria Tupinambá (Célia Tupinambá) reconstrói mantos e acompanhou a repatriação de 2024; o manto é sagrado para eles, e sua representação num demo pede consentimento.
   - **Tupiniquim de Aracruz** (ES), descendentes dos "alvos" da cena.
   - Pontos sensíveis: a antropofagia (evitar o espetáculo), as cabeças em estacas, a nudez (seguir as fontes com respeito e sem sexualizar) e o uso do manto.
9. **Não verificado nesta pesquisa:** Thevet (1557/1575) e Cardim, que não foram lidos diretamente; as cartas de Nóbrega e Anchieta sobre canoas tamoio em 1563–65 (Iperoig); e a paginação exata de Métraux (1948), "The Tupinamba", *Handbook of South American Indians* vol. 3. Não pude acessar a digitalização.

### Erros e anacronismos comuns para evitar
- Cocares das Planícies, penas de águia e toucas longas; plumária amazônica (kayapó, karajá) com cores e formas de outras culturas; grafismos kadiwéu ou marajoara na pele.
- **Canoas de tronco escavado com bordas altas e proas esculpidas** (para esta região e data, o correto é casca); velas.
- **Zarabatana** (não era usada na costa: nota de Roquette-Pinto e Wegner a Staden); arco e flecha com penas coladas em espiral (eram duas penas amarradas).
- **Tangas**, cintos de pano e saias de palha nos homens; barbas e sobrancelhas.
- Metal abundante, espadas e contas de vidro coloridas em massa; cavalos; cães.
- A palavra **"Pindorama"** como nome de época; e **"ygarapé"** para o canal (use *'y*, "água, rio", ou "canal"; em tupi antigo existe *paranã* para mar ou rio grande (**conferir** o verbete)).
- Guarás não são anacronismo (eram nativos; sumiram só no séc. XX).
- Embaúbas dominando a paisagem: isso é típico de mata perturbada moderna; em 1554, menos.

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## Bibliografia

### Fontes primárias
- **STADEN, Hans.** *Warhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden, Nacketen, Grimmigen Menschfresser Leuthen…* Marburg: Andres Kolbe, 1557. Digitalização completa: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Pages_of_Wahrhaftige_Historia · Archive.org: https://archive.org/details/staden · Texto alemão: https://www.projekt-gutenberg.org/staden/historia/historia.html
- STADEN, Hans. *Viagem ao Brasil*. Trad. Alberto Löfgren, notas de Theodoro Sampaio. Rio de Janeiro, 1930. Reed. Biblioteca Básica Brasileira: https://fundar.org.br/wp-content/uploads/2021/06/viagem-ao-brasil.pdf · BN Portugal: https://purl.pt/151
- STADEN, Hans. *Duas viagens ao Brasil*. Ed. Eduardo Bueno. Porto Alegre: L&PM, 2008. · Ed. crítica de Franz Obermeier (2023): https://www.academia.edu/111733542
- **LÉRY, Jean de.** *Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil*. La Rochelle, 1578 (ed. Gaffarel, 1880). Cap. VIII e XIV: https://fr.wikisource.org/wiki/Histoire_d%E2%80%99un_voyage_faict_en_la_terre_du_Br%C3%A9sil/08 · https://fr.wikisource.org/wiki/Histoire_d%E2%80%99un_voyage_faict_en_la_terre_du_Br%C3%A9sil/14
- **SOUSA, Gabriel Soares de.** *Tratado descritivo do Brasil em 1587*. Caps. LXXI, CXLVIII–CLXXIV: https://fundar.org.br/wp-content/uploads/2021/06/tratado-descritivo-do-brasil-em-1587.pdf
- **CAMINHA, Pero Vaz de.** *Carta a El-Rei D. Manuel* (1500): https://pt.wikisource.org/wiki/Carta_a_El_Rei_D._Manuel_(ortografia_atualizada)
- THEVET, André. *Les Singularitez de la France Antarctique* (1557) — não consultado diretamente.
- CARDIM, Fernão. *Tratados da terra e gente do Brasil* — não consultado diretamente (citação indireta em Castro 2010).

### Estudos
- NAVARRO, Eduardo de Almeida. *Dicionário de Tupi Antigo: a língua indígena clássica do Brasil*. São Paulo: Global, 2013.
- FERNANDES, Florestan. *A organização social dos Tupinambá*. São Paulo, 1949 (2ª ed. Hucitec/UnB, 1989).
- FERNANDES, Florestan. *A função social da guerra na sociedade Tupinambá*. *Revista do Museu Paulista*, n.s. 6, 1952 (reed. Globo, 2006).
- CARNEIRO DA CUNHA, M.; VIVEIROS DE CASTRO, E. "Vingança e temporalidade: os Tupinambá". *Journal de la Société des Américanistes* 71 (1985): 191–208. DOI 10.3406/jsa.1985.2262. https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/7389591.pdf
- VIVEIROS DE CASTRO, E. "O mármore e a murta: sobre a inconstância da alma selvagem". *Revista de Antropologia* 35 (1992); in *A inconstância da alma selvagem*. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
- FAUSTO, Carlos. "Fragmentos de história e cultura tupinambá". In CARNEIRO DA CUNHA, M. (org.). *História dos índios no Brasil*. São Paulo: Companhia das Letras/FAPESP, 1992.
- MÉTRAUX, Alfred. *La civilisation matérielle des tribus Tupi-Guarani*. Paris: Geuthner, 1928; "The Tupinamba", in STEWARD, J. (ed.), *Handbook of South American Indians*, vol. 3, 1948 (não consultado diretamente).
- MONTEIRO, John M. *Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo*. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
- PREZIA, Benedito A. G. *Os Tupi de Piratininga: acolhida, resistência e colaboração*. Tese, PUC-SP, 2008/2009. http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/tese:prezia-2008/Prezia_2009_Tupi_de_Piratininga.pdf
- BUENO, Eduardo. *Náufragos, traficantes e degredados*. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.
- CASTRO, Carlos Eduardo de. "História de Bertioga". VI Seminário Regional de Cidades Fortificadas, UFSC, 2010. https://cidadesfortificadas.paginas.ufsc.br/files/2011/03/2010_6sem_palestra_Sao_Joao_Bertioga_final.pdf
- "Forte de São Filipe da Bertioga". Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_S%C3%A3o_Filipe_da_Bertioga
- "Pindorama". Wiktionary: https://en.wiktionary.org/wiki/Pindorama · Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pindorama

### Ecologia
- Manguezais de Bertioga (serapilheira), USP: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6134/tde-05022018-160319/pt-br.php
- APAM Litoral Centro, diagnóstico de manguezal: https://sigam.ambiente.sp.gov.br/sigam3/Repositorio/511/Documentos/APAM_LC/APAMLC_Manguezal.pdf
- Guará (WikiAves): https://www.wikiaves.com.br/wiki/guara · ((o))eco, "Os guarás-vermelhos de São Paulo": https://oeco.org.br/analises/27983-os-guaras-vermelhos-de-sao-paulo-quando-o-errado-da-certo/
- Marés da costa SE (IO-USP): http://www.mares.io.usp.br/sudeste/sudeste.html

### Manto tupinambá
- The Art Newspaper, 17/9/2024: https://www.theartnewspaper.com/2024/09/17/national-museum-denmark-returns-sacred-indigenous-cloak-brazil
- Wikipédia, "Manto tupinambá": https://pt.wikipedia.org/wiki/Manto_tupinamb%C3%A1 · "Tupinambá cape": https://en.wikipedia.org/wiki/Tupinamb%C3%A1_cape
- VOA: https://www.voanews.com/a/brazil-officially-welcomes-return-of-sacred-indigenous-cloak-from-denmark/7782592.html
